Os Reclames Fantasmas de Pennacchi

Para mim o pior fracasso para o ser humano não  é a falta de sorte e sim a falta de reconhecimento. Não há coisa pior para o ser humano munido de talento que estar no lugar errado na hora errada . Assim aconteceu com vários artistas no início do século XX, como Van Gogh e Amadeo Modigliani que tiveram seus trabalhos reconhecidos muito tarde.

Se a viagem no tempo fosse possível, hoje eu daria um passeio pelo ano de 1929 em São Paulo e buscaria um gênio fracassado da nossa publicidade. Fulvio Pennacchi, um imigrante italiano que chegou ao Brasil com uma bagagem invejável de passagem por escolas de arte como  a Real Academia de Arte Passaglia de Luca na Italia.

No Brasil, Pennacchi começou a desenvolver cartazes publicitários em aquarela de riquissimas influências artísticas mas nao conseguiu emplacar. Sua arte era tão ousada para a época que seu valor merecido passou batido. Seus traços futuristas, construtivistas, déco e surrealistas eram como pequenas pedrinhas de diamantes vistas como caquinhos de vidro pelas ruas de São Paulo. Sua paixão pela publicidade não lhe rendeu um vintém. O descaso cultural daquela época era tão grande que Pennacchi  teve que virar açougueiro para sobreviver.

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Açougue Boi de Ouro - propriedade de Fulvio Pennacchi

Claro que não podemos esquecer que a crise mundial e as revoluções de 30 e 32  também tiveram sua cota de culpa. A publicidade brasileira naquela época não tinha como estar ligada nas tendências artísticas mundiais, e mesmo assim, as agencias do Brasil inspiraram em modelos norte americano que não tinham nada a ver com a linha artística européia. Portanto, Pennacchi estava no lugar errado e na hora errada quando produziu seus diamantes.

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Só nos meados da década de 30 que Fulvio Pennacchi começou a trabalhar com o que realmente gostava.  A partir de um convite do escultor Galileo Emendabili para trabalhar em seu ateliê, Pennacchi começou a desenvolver murais e afrescos para residências, uma delas é a mansão do Conde Matarazzo. Participou de exposições, executou pinturas de via-sacra em madeiras e vitrais, ilustrou painéis em grandes prédios públicos, enfim. Publicidade que é bom, nada. Mas tenho certeza que mesmo sendo reconhecido tardiamente, Pennacchi  deixou o planeta no dia 5 de outubro de 1992 com a sensação de dever cumprido. Para conhecer mais sobre Fulvio Pennacchi é só visitar o site dele.

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Reparem a influência artística dos carnavais venezianos para este cartaz

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novembro 15, 2009 at 11:08 pm Deixe um comentário

Chique e sem-noção

Eu sempre quis viver nesta época, mas o idealismo contraditório dos anos 50, 60 e 70 me impressiona. Enquanto a censura descia o porrete nos subversivos, a propaganda não tinha vergonha nenhuma de mostrar seus dotes nonsense  nas páginas de revistas. Era a época em que os bebês tomavam coca-cola, homens pisavam em mulheres e fumar era tão saudável quanto praticar esporte. Quando a mídia não era tão segmentada como hoje, os valores humanos eram entorpecidos com dosagens de machismo e violência nos anúncios, sem perder a classe, claro.  Os manequins sempre bem vestidos e penteados passavam mensagens infames para seus semelhantes. Ora, nesta época só lia revista quem tinha dinheiro.  É até irônico pensar que esses anúncios eram direcionados para quem tinha bons modos, boa educação. Fico imaginando a mocinha bem comportada esperando por sua professora de piano lendo  esses anúncios.

Abaixo, alguns anúncios. Aprecie com moderação:

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Dê 7Up para o seu bebê para ver o que acontece.

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Se fosse hoje, este anúncio com certeza seria bombado pelo anunciante.

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Para um bom começo é ótimo! Dê coca-cola para o seu bebê para ver o que acontece.

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Na época em que classe era inimiga da educação. Detalhe para a blusa transparente.

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Fico imaginando, quantas mulheres consumiram Peps pensando que ia agradar o marido.

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Esta pra mim é a melhor! A Panasonic apelou até para quem não tinha cabelo. Que mau gosto este anúncio!

Era chique fumar. Era chique beber refrigerante, ser dona de casa submissa, usar durex.

Até considero que essa era a época em que a propaganda era mais arte que comercial, o anúncio demorava semanas para ficar pronto, fotos bem produzidas, tipografia e design bem colocados e mensagens imperdoáveis. Mas me pergunto, a propaganda era mais criativa sem as regras? Acho que não.

setembro 9, 2009 at 7:57 pm 1 comentário

O estalo vem da massa

Todo publicitário que se preza tem que ter uns estalos de vez em quando. O redator, o diretor de arte, o atendimento, o estagiário, o designer, todos tem que estar antenados e ser capazes de ter aquela grande sacada. Antenados no sentido geral, claro. Não quero dizer que os profissionais da propaganda devem decorar o anuário de Criação ou assinar a M&M, quero dizer que todos devem saber o que está rolando desde a infidelidade de Norminha aos 90 anos de Bauhaus. Do Faustão a premiação de Cannes.

Observo que a turma nova que está entrando no mercado está perdendo um pouco de contato com a massa. A meninada está dando exclusividade para a indústria Cult e não percebem que só François Truffaut e companhia não levam publicitários a nenhum estalo. O estalo vem da massa, da comunicação rápida e barata. A percepção, além de surpreendente deve ser simples e ligeira. O bom publicitário deve entender as entrelinhas, falar várias línguas, incluindo o hindu de Glória Perez, o malaquês e o miguxês.

Um bom exemplo de estalo é a história de João e Lica que Aracaju inteira comentou. A Teaser apostou em um viral para GW – Soluções em Comunicação Visual e mandou muito bem. Quer coisa que mais chama atenção que a vida alheia? E o melhor dessa história é que a briga de João e Lica gerou um ótimo anúncio de oportunidade. A Base com sua rapidez infalível, não dormiu no ponto e assim que viu a briga do casal sapecou a resposta para o Motel Francese em placas de outdoor.

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Parabéns Teaser, por ter deixado os publicitários de Aracaju ainda mais aguçados. E parabéns Base, por mostrar agilidade na resposta.

P.S. Falando em briga de casal, me lembrei de uma boa. Em 2006 Emily, traída pelo marido, deixou um recadinho super discreto para ele  nas ruas de NY.  Sim, ruas porque não foi só uma placa:

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Oi Steven, tenho sua atenção agora?

Sei tudo sobre ela, seu sujo, canalha, imoral, infiel, brocha. Está tudo gravado. Sua (em breve- ex) esposa, Emily. P.S. Eu paguei por este outdoor de NOSSA conta bancária conjunta.

Se é fake eu não sei, mas foi criado um blog na época em nome de Emily.

agosto 12, 2009 at 3:06 pm 2 comentários

A real função dos Outdoor´s

Banalizaram o outdoor.  O que era pra ser um veículo de grande  impacto está  conseguindo se igualar às panfletagens de semáforos.  No caminho que faço de casa ao trabalho e vice-versa existe uma massa de outdoors que é impossível  descrever pelo menos 1  deles .  Só posso falar que a maioria  é de muito mau gosto, com emaranhados de textos e  fotos  de bancos de imagem gratuitos que a gente tá cansado de ver por aí.  É uma pena que esteja assim. Uma peça tão legal de ser criada, com uma dimensão tão grande se tornar um gigante adormecido na publicidade.   E o pior não é isso,  o pior é que as empresas de outdoor estão cada vez mais fominhas e colocando placas até no próprio quintal.  Uma avenida em Aracaju por qual eu passo todo santo dia,  vejo um atrás da outro,  vejo um,  vejo outro, e a medida vou vendo os seguintes esqueço dos anteriores.

A culpa  toda é da agência que não está habituada a fazer um plano de guerrilha para os clientes, ou que não consegue educar o cliente, que adora palpitar quando o assunto é criação. Aí acontecem coisas do  tipo: A gente cria um outdoor super legal que vai dar um super impacto, aí chega o cliente e diz:  faltou endreço e telefone, coloca o site também. Ah, e fala que atendemos de segunda a sabado…  Brocha geral, né coleguinha?

Abaixo um outdoor de guerrilha que deu  o que falar em Santa Mônica na Califórnia.  O Audi chamou a BMW para uma “briga” que gerou esse resultado:

Audi A4:“Sua vez, BMW” BMW: “Cheque mate.”

Audi A4:“Sua vez, BMW” BMW: “Cheque mate.”

E tem a história do aplique também. Virou moda esse negócio de aplique né?  E claro, que 99% dos casos é super desnecessário, é como usar cachecol com blusinha decotada.  Mas os  necessários são inesquecíveis. Como este aqui:

Cliente: TV3  - divulgação da série Law & Order • Criação: Colenso BBDO - Nova Zelândia

Cliente: TV3 - divulgação da série Law & Order • Criação: Colenso BBDO - Nova Zelândia

Outro exemplo de outdoor de guerrilha é a oportunidade  que  RONA, uma rede de materiais de construção, aproveitou para  deixar sua mensagem em grande estilo:

Apple e seus ipods coloridinhos e Rona reciclando restos de pintura

Apple e seus ipods coloridinhos e Rona reciclando restos de pintura

junho 17, 2009 at 4:49 pm 1 comentário

Banksy, o artista guerrilheiro

Artista que é artista sempre tem ou já teve problemas sociais.  Alguns  já passaram temporadas no xilindró, outros tiveram uma triste e pobre infância no beco da miséria e tem aqueles que não passam dos 40 anos por problemas etílicos ou depressivos.  Artista que é artista sempre se esconde da imprensa, nunca quer ser capa ou participar de talk show.  E hoje vou falar de um desses artistas.  Banksy, um inglês nascido em Bristol que já foi expulso da escola e  preso por aprontar algumas peripécias que não consegui encontrar no google.

Seu trabalho é o stencil com conceitos  passados explicitamente como  aversão ao poder e autoridade. É claro que o mocinho já teve sérios problemas com isso. Já chegaram a cobrir um de seus trabalhos com uma generosa camada de tinta preta,   já foi chamado de pichador (!)  Mas são atitudes como essa que valorizaram o passe de Banksy, e  um de seus trabalhos já foi vendido por  aproximadamente 200 mil dólares.

Em Belém, láaaaa pros lados das bombas,  você pode encontrar alguns trabalhos de Banksy que já ficaram famosos por lá, ou melhor já viraram roteiro turístico, “Tour Banksy”.  Nesta matéria de Michael Moore você pode saber mais sobre o Gueto do Papai Noel.

Com a imprensa Banksy não fala muito, e para os pais  ele é apenas um decorador e pintor é melhor dar um pulinho e Bristol para saber mais sobre Banksy. Para conhecer um pouquinho do artista guerrilheiro é  só entrar no site dele.

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BANKSY AGAIN

junho 16, 2009 at 2:22 pm Deixe um comentário

Cheguei!

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Hoje é o dia da nossa  língua Portuguesa. E meu primeiro post vai ser em homenagem a um dos meus poetas preferidos:  Fernando Pessoa ou Ricardo Reis ou Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro ou Bernardo Soares ou Alexander Search.  Um poeta de vários heterônimos onde todos escreviam com a nossa língua pátria, menos Alexander. Pois é,  Alexander Search era um dos nomes que Fernando Pessoa usava quando ainda era um estudante.  Deve ser muito instigante a vida de Fernando que como Alexander  escrevia cartas para ele mesmo, todas em inglês.  Problemas Psicológicos, crises existenciais, loucura? Vai entender a profundidade desses poetas.

Aqui vou deixar um trechinho de Tabacaria que faz jus ao que Fernando Pessoa era, ou queria ser, ou queria se passar por:

…”Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.

Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.”…

junho 10, 2009 at 9:12 pm 1 comentário


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